Dicas para concretizar projetos relacionados à computação gráfica em 2009

Agora que as festas já estão acabando, está chegando a hora de colocar em prática alguns daqueles projetos que sempre queremos começar, mas por falta de conhecimento ou ânimo, acabam esquecidos ou deixados para outra oportunidade. Mesmo que o seu projeto seja modesto, como dominar o mundo criar uma animação 3d de longa metragem para competir com a Pixar, sempre é importante planejar e conhecer algumas características desses projetos, para evitar cair nos erros comuns cometidos pelos artistas com menos experiência. Como sei que algumas pessoas podem ter feito promessas de ano novo, envolvendo esses projetos, organizei uma pequena lista com alguns dos itens mais comuns, baseados nos e-mails que recebo aqui no Blog e também nas consultas que recebo dos meus alunos.

Quickdraw Animation Class

Essa é a lista com os projetos:

  • Animação em longa metragem: Aqui temos um dos maiores sonhos de todos os artistas 3d, produzir e criar uma animação em longa metragem. Mesmo sendo algo fantástico, o melhor conselho que posso passar em relação à esse projeto é; desista. Sim, pode até parecer rude, mas esse tipo de projeto envolve altos níveis de complexidade e custos financeiros, o que inevitavelmente já faz com que ele comece fadado ao fracasso. A Pixar demorou quase 10 anos para começar a produzir animações desse tipo de ter lucro.
  • Animação em curta metragem: Agora que você já está pensando duas vezes antes de começar um projeto de animação em longa metragem, talvez a melhor opção seja uma animação mais curta, com tempo entre 2 e 10 minutos. Tenha sempre em mente que quanto maior for o tempo de projeção, mais trabalhada será a história e a demanda por cenários e a animação de personagens. Muitos artistas e pequenos estúdios conseguiram chamar a atenção com animações bem produzidas, mas com tempo bem curto. Se você realmente quiser tentar trabalhar com uma animação, recomendo que siga esse caminho.
  • Projeto de jogo em RPG para competir com a Square: Outro projeto que geralmente começa com muita empolgação, mas ao longo do tempo esbarra nas dificuldades técnicas de se produzir um jogo. Tenha em mente que jogar um jogo é muito diferente de criar. Certa vez conversando com um coordenador de um curso de desenvolvimento de jogos, ele me disse que alguns alunos o questionavam nos primeiros dias de aula do curso “quando vamos começar a jogar?”. O mercado de animação interativa está crescendo, mas é necessário saber identificar as oportunidades, pois o mercado de entretenimento já é dominado por empresas com muito capital e grandes equipes, com conhecimento e estrutura para criar grandes produções. O que você acha de trabalhar em um enredo, game design ou game plays diferentes? Esse pode ser um ótimo começo para ingressar nesse mercado.
  • Trabalhar com computação gráfica: A possibilidade de trabalhar com aquilo que tanto gostamos é sempre um pensamento empolgante, mas antes de entrar de cabeça nesse mercado é importante conhecer algumas das particularidades do mesmo, principalmente na sua região. Assim como acontece com qualquer profissional que depende de clientes com demanda, a maior dificuldade na área é conseguir trabalho com freqüência. Por isso, antes de entrar no mercado é muito importante dedicar seu tempo à produção do portfólio, que será a principal forma de captar esses clientes. Quanto mais trabalhado e interessante for o portfólio, mas probabilidade de captar clientes você terá.
  • Abrir uma empresa ou produtora de animação: Como você deve estar cansado de escutar, o processo de criação de uma empresa no Brasil é burocrático e muito caro. Mas, chega uma determinada hora em que a demanda por serviços e projetos de clientes requer mais profissionalismo, e até mesmo algumas concorrências públicas para projetos maiores só podem aceitar propostas de pessoas jurídicas e não de freelancers. Antes de abrir uma empresa, recomendo muito planejamento na parte financeira, para suportar a carga de impostos e também nos recursos humanos, pois os encargos na folha de pagamento dos colaboradores será pago com o orçamento dos projetos de animação.
  • Prestar serviços como freelancer em animação ou modelagem: Para quem tem facilidade em falar inglês, essa pode ser uma fonte de renda fantástica. O mercado de jogos e produções para TV é muito grande fora do Brasil e as empresas precisam reduzir custos de produção, para maximizar o retorno para suas empresas. Então, ao invés de pagar grandes valores para empresas americanas, as produtoras pagam um pouco menos para artistas e empresas de países como Índia e Brasil, com o mesmo nível de qualidade. Esse é outro ótimo motivo para estudar inglês! O fenômeno é conhecido como offshoring, e deve ser potencializado em 2009 com a crise financeira. Pense um pouco, para um artista baseado nos Estados Unidos o salário mensal de 1000 dólares é irrisório, mas para a realidade brasileira o valor passa dos 2200 reais hoje.

A lista pode ser até pequena, mas envolve a maioria dos projetos que têm algum viés para a computação gráfica. Antes de começar a trabalhar em qualquer desses projetos, sempre é recomendável fazer um bom planejamento. O melhor termo é fazer um prognóstico de cada ação sua, e a influência que essa mesma ação pode ter no resultado final.

Agora que você já conhece alguns desses projetos, que tal começar a trabalhar?

Offshoring e terceirização na computação gráfica?

O que é Offshoring? Esse é um modelo de relacionamento entre empresas, em que parte da produção ou prestação de serviços é passada para outros países. O movimento de Offshoring é muito forte em vários segmentos da indústria e na prestação de serviços, em especial os que falam a língua inglesa. Mas, qual a relação disso com a computação gráfica? A relação é total! Nos países em que o mercado de computação gráfica é mais maduro, muitas empresas já terceirizam partes da produção de jogos e efeitos para localidades como a Índia e países asiáticos. Um ótimo exemplo, para o mercado de jogos é a Ubisoft, que tem centros de desenvolvimento de jogos e material gráfico 3d, totalmente aportados na Índia.

A razão é o preço, muito inferior ao que se paga para profissionais em outros mercados. Mesmo com preço inferior, os trabalhos desenvolvidos por profissionais nesses países têm o mesmo nível de qualidade. A conta é bem simples, com mesmo nível de qualidade e menor custo? É certeza que as empresas devem contratar profissionais nesses países, para desenvolver e criar conteúdo.

UTD Game Dev Weekend (335)

Agora, como isso pode influenciar o nosso trabalho, aqui no Brasil?

O nosso mercado ainda está em desenvolvimento, mas muitas empresas já começam a trabalhar de maneira séria com computação gráfica e com a explosão da construção civil, o mercado de visualização de projetos está bem aquecido. De longe esse é o segmento que mais emprega na área de computação gráfica.

O nosso mercado está protegido do Offshoring, mas acredito que isso é temporário apenas, um dia isso vai começar a acontecer. Essa proteção é pela falta de cultura no uso da internet por boa parte das empresas e a língua inglesa. Se falássemos inglês, essa proteção já teria se esvaído há muito tempo. Veja que falei sobre proteção e não blindagem!

Quer ver um exemplo de uma empresa que oferece serviços para Offshoring na computação gráfica? Visite o web site dessa empresa, que oferece serviços para várias áreas. Não conheço e nem contratei nada dessa empresa, mas o portfólio de imagens é impressionante. Se o custo for realmente mais baixo, é uma concorrência a se temer.

Repare que isso é um movimento natural do mercado e da economia como um todo. A maioria dos artistas envolvidos com computação gráfica só quer saber de tutoriais e dicas sobre produção. Sei que é difícil se atualizar em temas como economia, mas é preciso entender o funcionamento do mercado para não ser pego de surpresa.

O que fazer para se proteger?

Bem, depois de ler muito sobre o assunto, fiz uma lista de coisas que você pode fazer para tentar se proteger de uma possível onda de terceirização:

  • Atuar como intermediário na prestação desses serviços: O artista que souber aproveitar a falta de cultura que as pessoas e empresas têm em relação à internet, pode aproveitar a oportunidade e atuar como intermediário, na contratação de serviços no exterior. Ao invés da empresa contatar a prestadora, você seria o contato deles aqui no Brasil. As empresas e profissionais liberais têm medo de contratar esse tipo de serviço, pela dificuldade na comunicação. Eles sentem falta de ter uma pessoa para quem ligar quando acontece algum problema.
  • Prestar serviços mais especializados: Uma saída é abordar mercados mais especializados, com grande potencial de crescimento. Um bom exemplo disso é o de visualização para a área médica.
  • Ingressar nesse mundo globalizado e prestar serviços para o exterior: Por último, que tal ingressar nesse mercado? Os nossos custos aqui no Brasil podem ser maiores que os da Índia, mas são bem menores que os apresentados nos EUA ou Europa. Ofereça seus serviços para essas empresas no exterior, mas é necessário manter um alto e constante nível de qualidade nos trabalhos.

Todas essas alternativas envolvem investimento, principalmente no estudo da língua inglesa para facilitar a comunicação. Sempre digo aos meus alunos, que na área de informática o inglês é uma necessidade! Não só a habilidade de ler, mas de falar também.

Se você quer mesmo trabalhar nessa área, precisa pensar nessas coisas. Adotar isso como profissão, significa dedicar grande parte do seu tempo ao longo de 10, 20 ou até 30 anos nessa área. Pensar no futuro da profissão é fundamental para evitar surpresas.

Para quem quiser saber mais sobre isso, recomendo a leitura do livro O Mundo é Plano, do Thomas L. Friedman. Ele fala exatamente sobre essas novas relações de trabalho, que mudaram com a internet. Eu li o livro no começo do ano e posso recomendar.

Às vezes também é bom dar um tempo nas interfaces e na modelagem 3d.